segunda-feira, novembro 17, 2008

Vicky Cristina Barcelona

O mais recente filme de Woody Allen estreou no Rio semana passada, trazendo um frescor que lembra o estilo dos primeiros filmes de Pedro Amodóvar, tanto no uso da cor quanto na mise en scène.

Vicky Cristina Barcelona, ambientado na bela cidade catalã, aborda as relações amorosas entre um poeta local, interpretado pelo talentoso ator Javier Bardem (de Mar Adentro), e duas amigas norte-americanas em férias na Espanha, vividas pela atual musa do diretor, Scarlett Johansson (Cristina), e Rebecca Hall (Vicky). Servindo de contraponto para a marcante presença cênica de Bardem, surge Penélope Cruz, a ex e eterna mulher do protagonista, em papel em nada diferente dos que interpretou em filmes almodovarianos.

Nessa simpática e leve comédia, Woody Allen mais uma vez filma na Europa, tendência que havia anunciado em Dirigindo no Escuro e que assumiu desde Match Point.

Se, por um lado, Vicky Cristina Barcelona parece um tanto distante dos melhores momentos da obra do diretor elaborada nos anos 70/80, da densidade dramática de personagens em busca de si mesmos em uma Manhattan que os desorienta tal qual a seu criador, o próprio Allen, por outro o filme traz em si uma leveza e um descompromisso agradável tanto aos olhos quanto ao espírito. Um cinema, sob esses aspectos, em acordo com suas origens primeiras, ou seja, gestado para simplesmente divertir. Em tratando-se de Woody Allen, diversão que une sutileza e inteligência.

segunda-feira, setembro 01, 2008

O Atalante - Minha ultima sessão de cinema no Paissandu

Minha última sessão de cinema no Paissandu foi às 19h15 de sexta, 29 de agosto de 2008. O filme escolhido foi o francês O Atalante (L' Atalante), de Jean Vigo, de 1934.

As belas imagens da história de amor passada a bordo do barco Atalante, o último filme de Vigo, não deixam transparecer seus conturbados bastidores: o diretor filmava já bastante doente, morreria poucos meses depois das filmagens, e o filme passaria por sérias dificuldades de finalização.

O que o breve documentário exibido antes do filme contextualizava, coincidia com o sentimento de tristeza na platéia pelo fechamento, dali a dois dias, do Cine Paissandu, no Flamengo, um dos poucos cinemas de bairro da cidade do Rio de Janeiro, reduto de cinéfilos e amantes da sétima arte. Os motivos para o fechamento foram amplamente divulgados pela mídia local, relativos a problemas financeiros para a manutenção da sala. O que ocasionou protestos desesperados na tentativa de reverter o fechamento ou ao menos mobilizar as pessoas em torno de seu não fechamento.

Um dos primeiros a tomar iniciativa foi Fabio Coutinho, integrante de meu grupo de discussão, Roteiros On Line, que disponibilizou um abaixo-assinado, ainda disponível no link http://www.petitiononline.com/15121960/petition.html . Até o momento (são 20h30 de segunda, 01/09/2008), constam 5.719 assinaturas.

O Atalante narra a lua-de-mel de um casal a bordo do navio homônimo, pelos canais de Paris. O dono do barco é Jean, o marido, e a bordo estão mais duas figuras. Uma delas, o tio, impõe à imagem um tom humano e sincero e, ao mesmo tempo, grotesco, seja por sua imagem tatuada, seja pelas atitudes, ou pela quantidade de gatos que convivem no espaço exíguo da embarcação, em cima da mesa, dentro dos armários e em cima das camas. Em contraste, Juliette, a recém esposa, surge sobre o barco em seu traje de noiva, uma das mais belas cenas do filme e da história do cinema, ou mergulha seu rosto numa tina onde diz ver o rosto de seu amado. O marido, ao contrário, não consegue o mesmo feito, o que frustra a jovem. Ela sonha conhecer Paris e em uma das atracagens do Atalante na cidade, conhece um vendedor ambulante que lhe atiça ainda mais a curiosidade. Juliette acaba fugindo, ao mesmo tempo em que Jean decide esquecê-la. Vendo seu sofrimento, o tio decide procurar a moça.

É um filme de constrates entre momentos de intenso lirismo e imagens quase documentais.

E é plenamente visível na imagem as influências de dois movimentos surgidos na França e quase contemporâneos ao filme: o impressionismo francês e o surrealismo.

O Atalante será lançado no Brasil em breve em dvd, juntamente com demais filmes de Jean Vigo.

Um filme que guardarei na lembrança não só pela beleza, mas também por ter sido minha última sessão de cinema no Paissandu.

Um Crime Americano (An American Crime)

Um Crime Americano (2007) choca por vários fatores que o diretor e também roteirista do filme, Tommy O'Haver, soube muito bem orquestrar para contar a história real de Sylvia Likens, vítima aos 16 anos do mais brutal crime contra uma só pessoa ocorrido em Indianápolis, Indiana, USA, em 1965. Sylvia e sua irmã Jennie, mais jovem e deficiente, são deixadas temporariamente pelos pais, que trabalham em um circo, na casa de uma desconhecida, Gertrude Baniszewski, mãe solteira de sete filhos, em troca de 20 dólares semanais. Porém, Gertrude logo fará de Sylvia seu objeto para seu ódio e insanidade, começando por castigos físicos até o enclausuramento da moça no porão da casa, onde lhe perpetuará torturas diárias durante aproximadamente dois meses.
O filme torna-se chocante também pelo inevitável paralelo com o recente e bárbaro crime de Goiânia, onde uma criança de 12 anos era mantida em condições similares.

Alguns elementos nos levam a refletir sobre a violência na esfera social privada: a opção de Sylvia por entregar-se como mártir para proteger a irmã, o que parece ter aguçado ainda mais os instintos cruéis de Gertrude; a crescente participação dos filhos e seus amigos na tortura, o que, certamente, é o mais chocante na história; a omissão de todos, incluindo vizinhos, em socorrer Sylvia.

Atenção especial (diga-se especial para quem não sabe o desenlace da história real) para o final comovente, quando Sylvia faz questão de voltar à casa onde fora enclausurada.

E destaca-se ainda a excelente atuação das atrizes principais, Ellen Page (a mesma de Juno) como Sylvia, e Catherine Keener (de Capote) como Gertrude.

Um Crime Americano não aponta causas nem soluções para tamanha violência. No que o diretor acertou, na minha opinião. Ao contrário, ao mostrar a situação através de um recorte baseado no que de fato aconteceu, ele nos fornece a opção da reflexão, da análise.

Talvez a grande questão que fique ao final do filme, seja: "Um Crime Americano?"

terça-feira, agosto 05, 2008

LEMON TREE, limoeiros como metáfora de um conflito


Lemon Tree traz a nós, do ocidente, mais uma visão sensível sobre os conflitos entre israelenses e palestinos. Assim como em A Banda, filme já comentado e indicado neste blog, a curiosidade recai sobre a vida das pessoas da região. Porém, enquanto em A Banda a abordagem do conflito é deixada em suspenso para vivenciarmos a subjetividade de seus personagens, em Lemon Tree ele logo se estabelece e ganha em densidade dramática. O foco metafórico da disputa entre israelenses e palestinos passa a ser uma plantação de limoeiros, que separa, de um lado, a recém instalada casa do Ministro da Defesa de Israel, e, de outro, a residência de uma viúva palestina, proprietária dos limoeiros, o lado supostamente mais fraco desse embate. Porém, com o toque sensível do diretor Eran Riklis, o mesmo de A Noiva Síria, acompanhamos a luta contida e solitária dessa mulher em defesa da plantação, de onde tira seu sustento. Em meio a isso, as verdades de cada personagem vão sendo expostas com sutil maestria, levando-nos, ao final do filme, a refletir: quem ganhou e quem perdeu nesse conflito? É quando se torna mais viva a reflexão sobre o drama real que assola a região há anos, questionamentos que, finda a exibição, seguem conosco para além da sala de cinema.


Ficha técnica:
Título original: Lemon Tree / Etz Limon
Israel/ Alemanha/ França
2007, color, 106 minutos
Gênero: Drama
Áudio: Árabe, Hebraico, Inglês
Direção: Eran Riklis
Roteiro: Suha Arraf e Eran Riklis

Elenco:
Hiam Abbass - Salma Zidane
Ali Suliman - Ziad Daud
Rona Lipaz-Michael - Mira Navon
Doron Tavory – Ministro de Defesa de Israel / Navon
Tarik Kopty - Abu Hussam

Destaques:
- Premiado como Melhor Filme pelo júri popular do Panorama no Festival de Berlin 2008

segunda-feira, julho 07, 2008

A Banda (THE BAND’S VISIT)


O filme A Banda, do diretor e roteirista israelense Eran Korilin, que vem acumulando prêmios em diversos festivais de cinema, é uma grata surpresa e não só pela inusitada temática.

Embalado por uma bela trilha sonora ao estilo jazzístico e pela adoção de tempos estendidos, ao estilo do mestre Antonioni, e também com claras referências ao cinema de Wim Wenders, A Banda ambienta-se em uma cidade perdida no deserto israelense. O tempo parece ali parar. E é nesse estado de suspensão da ação que somos mergulhados no universo de solidão não só do lugar em si, mas muito mais dos personagens, tanto dos que chegam, os músicos, quanto dos que ali permanecem para sempre.

Ao longo do filme, quase nos esquecemos de que tais personagens pertencem a dois grupos tradicionalmente conflituosos entre si: egípcios e israelenses. E esse é o grande atrativo de A Banda, a exposição do mundo interior desses personagens, mostrados apenas como pessoas comuns, exposição esta conduzida com extrema sensibilidade, como todo o bom cinema é capaz de realizar. Um filme que consegue tocar espectadores de culturas tão diversas e distantes, como eu e meu amigo Paulo, que assistíamos ao filme mergulhados naquela atmosfera contemplativa em uma sala de cinema do Rio de Janeiro, Brasil, América do Sul.

Estão ali personagens universais, facilmente identificáveis e verossímeis, outro aspecto basilar que o bom cinema procura retratar. Diante da tela, encontram-se pessoas iguais a nós, independente de qualquer nacionalidade. Simplesmente pessoas. É disso que trata A Banda, filme que recomendo especialmente àqueles que apreciam um cinema que se permite dar-se à contemplação. (Em cartaz no Rio e em São Paulo).

Para ouvir a bela música-tema do filme, basta acessar seu site oficial: http://www.thebandsvisit.com/intro.html


Sinopse
Os músicos de uma pequena banda militar egípcia chegam a Israel para se apresentar num grande evento, mas em razão da burocracia - ou da total falta de sorte mesmo – acabam esquecidos no aeroporto. Ao tentar seguir viagem por conta própria, sendo que apenas o jovem Haled fala inglês, e nenhum deles entende uma única palavra em hebraico, acabam numa pequena cidade em algum lugar no coração do deserto israelense. Uma banda perdida numa cidade perdida. Logo são acolhidos pelos amigáveis moradores que, apesar das diferenças culturais, abrem seus corações aos forasteiros. Durante 24 horas, a música e o amor criam entre eles uma conexão inesquecível.

O Diretor
O diretor e roteirista ERAN KOLIRIN nasceu em 1973 em Israel. Seu primeiro trabalho para cinema foi o roteiro de “Zur – Hadassim”, pelo qual recebeu o prêmio Lipper de melhor roteiro no Jerusalem International Film Festival de 1999. Em 2004, ERAN KORILIN escreveu e dirigiiu “The Long Journey”, um filme feito para a TV. A BANDA é seu primeiro longa-metragem e, atualmente, ele trabalha no roteiro de seu próximo fillme, “Pathways in the Desert”.

TÍTULO ORIGINAL: “BIKUR HATIZMORET”
ANO DE PRODUÇÃO: 2007


Curb Your Enthusiasm – A Reinvenção do Sitcom

  Curb Your Enthusiasm é um dos mais brilhantes sitcoms da televisão norte-americana depois de Seinfeld . O criador de ambos, Larry David...