quinta-feira, dezembro 05, 2024

Curb Your Enthusiasm – A Reinvenção do Sitcom


 

Curb Your Enthusiasm é um dos mais brilhantes sitcoms da televisão norte-americana depois de Seinfeld. O criador de ambos, Larry David1 já faz parte da história da televisão dos Estados Unidos e do mundo por inovar a linguagem da narrativa serial.

A partir do final da década de 80, Larry renovou o sitcom (ou comédia de situação, um retrato bem-humorado do cotidiano) com o premiado seriado Seinfeld. A série recebeu 58 prêmios, entre eles três Globos de Ouro e seis Emmys. Seinfeld foi eleito pela revista norte-americana TV Guide, em 2002, o melhor seriado de televisão de todos os tempos.

Dois anos após o último episódio de Seinfeld, Larry David voltaria a surpreender em 2000, com uma proposta ainda mais autoral e radical de stand-up serial ao lançar Curb Your Enthusiasm. Aliando realismo a improviso, com a nova série Larry recria a estrutura do sitcom contemporâneo.

Curb é uma série original da HBO que alcançou grande sucesso de público desde sua estreia, nos Estados Unidos e em vários países. Superou em muito Seinfeld (1989-1998), que ficou 9 anos no ar em 9 temporadas. Curb Your Enthusiasm (2000-2024) alcançou a marca de 24 anos ao longo de suas 12 temporadas.

Se como afirma Jean-Pierre Esquenazi2, a série é o gênero dominante em televisão, Larry David é o grande nome por trás do sucesso da comédia de situação.


Realismo e Improviso em Curb Your Enthusiasm

Larry David, ao imaginar a nova série, desejava que ela tivesse uma forte impressão de realidade. Para dirigir essa ousadia estética em termos de sitcoms, convidou o amigo e documentarista Robert B. Weide3, que havia realizado em 1982 o documentário para televisão The Marx Brothers in a Nutshell. Weide dirige grande parte dos episódios de Curb. Adotou-se, então, uma câmera ao estilo documentário do Cinema Verdade francês, resultando em imagens similares as de vídeos caseiros. Não raro vê-se a câmera tremida em Curb Your Enthusiasm seguindo os personagens nas ruas ou em interiores. O estilo recebeu nos Estados Unidos o nome de mockumentary, o que, numa tradução livre, aproxima-se do termo ‘falso documentário’.

Outra medida em prol do realismo diz respeito aos nomes dos personagens serem os mesmos, em sua grande maioria, dos atores que os interpretam.

De acordo com os estudos de Esquenazi sobre seriados, o canal HBO valorizava o realismo em seus produtos, principalmente o documentário caseiro, o que já era feito, antes de Curb, nos gêneros dramáticos e policiais.

A ênfase no realismo tem por intuito valorizar o aspecto ficcional e dramatúrgico de Curb Your Enthusiasm. A aura de verdade que cerca o seriado é acentuada pelos diálogos improvisados, que permitem maior espontaneidade aos atores. O elenco é informado sobre o que ocorrerá na cena, mas não recebe script. Não há ensaios. A orientação é que os atores não tentem parecer engraçados. O resultado é único. Assim como é único o laço que une realismo e improviso em Curb.


Temática

O tema é o nada. Como em Seinfeld, Curb Your Enthusiasm trata de situações corriqueiras. Aqui, Larry David se reinventa no personagem que interpreta. É famoso, rico, bem-sucedido na carreira, mora em Los Angels, é casado com a adorável e paciente Cheryl David (interpretada pela atriz Cheryl Hinds), está cercado de fiéis amigos, como seu agente Jeff Greene (o ator Jeff Garlin), sua irritadiça mulher, Susie Greene (a atriz Susie Essman) e Richard Lewis (o próprio), entre muitos outros. O cotidiano de Larry é cercado de pequenos contratempos que desencadeiam uma sucessão de mal-entendidos. O personagem parece ter um peculiar talento para irritar todos a seu redor. Neurótico, maníaco, obsessivo, dramático, porém autêntico ao expressar livremente sua opinião em temas que o bom convívio social condena, Larry tenta ludibriar pequenas convenções, como participar de festas e jantares sociais aos quais não sente vontade de ir. O que gera uma grande confusão. De acordo com as palavras do próprio Larry David, em Curb Your Enthusiasm ''nenhuma boa ação fica impune.''

Além de situações cotidianas, como uma visita ao médico ou a um amigo, o politicamente incorreto, como ocorrera em Seinfeld, ganha uma versão mais abrasiva em Curb. O enredo não poupa cegos, deficientes físicos, negros, judeus. Larry David é judeu e piadas nesse sentido são comuns no seriado, desde os cerimoniais, passando pelas reuniões familiares até a exacerbação dos estereótipos que cercam seu grupo étnico-religioso. Em um dos episódios das primeiras temporadas, uma amiga de Cheryl, Wanda (interpretada pela atriz Wanda Sykes), que é negra, dá a entender a Larry que ela considerava Seinfeld um seriado racista, por praticamente não apresentar situações envolvendo negros. A pista ali deixada no início de Curb será retomada mais adiante quando duas temporadas, a 6ª e a 7ª, têm participação dos ‘Blacks’. Tudo começa quando Cheryl, no primeiro episódio da 6ª temporada, decide hospedar uma família desabrigada pelo furacão Edna. A família é negra e tem por sobrenome Black. Larry surpreende-se e interroga: é como se “um judeu tivesse o sobrenome Judeu”? Os Blacks, como passa a ser chamada a família adotada por Larry e sua mulher, mudam-se, então para a casa do casal. Nas duas temporadas, ao referir-se à família pelo nome Blacks, porém, Larry envolve-se em inúmeros mal-entendidos relacionados a racismo e preconceito por parte de quem o ouve, sejam amigos ou desconhecidos.


Formato e Estrutura

Cada temporada de Curb Your Enthusiasm é composta por 10 episódios de cerca de 30 minutos. Há uma cadeia de eventos que ocorrem em consequência de um evento gerador comum ao conjunto dos episódios de uma temporada. O desenlace de uma temporada é o fio condutor da próxima. Como exemplo, temos a separação de Larry e Cheryl, que ocorre ao final da 6ª temporada. O fato desencadeia uma nova família para Larry, que será o mote da 7ª temporada. Ali, surge o debate sobre uma possível volta do seriado Seinfeld, que, por sua vez, será o tema geral da 8ª temporada. Enquanto isso, em cada episódio ocorrem outros eventos.

A divisão em atos e a construção narrativa linear e em cadeia em Curb Your Enthusiasm seguem os parâmetros da estrutura clássica de construção de roteiros.

Weide4 afirma que em termos formais cada episódio tem um roteiro com sete ou oito páginas contendo 15 cenas. Para Larry David, que passou quase uma década escrevendo os diálogos de Seinfeld, a estrutura de Curb Your Enthusiasm é libertadora para ele, que se envolve em todas as etapas, da pré-produção à edição.

De acordo com o roteirista e diretor Alec Berg5, que trabalhou em Seinfeld e em Curb, foi com Larry David que aprendeu o valor da estrutura. Segundo ele, o roteiro deve ser enxuto e fazer a história avançar. Se algo não precisa estar no script, deve ser retirado, de modo a se alcançar o tempo certo da comédia. E como conseguir isso? Para Alec, mais uma vez, o segredo está na atenção à confecção da estrutura.

Larry David, não só por sua capacidade inventiva, mas também pelo cuidadoso trabalho de construção do roteiro e montagem de sua estrutura, pode ser considerado o mais importante nome do seriado televisivo de todos os tempos.

Curb Your Enthusiasm reinventa a linguagem e a estética do sitcom e serve de modelo inspirador para novas possibilidades para as séries televisivas.


[Nota da autora: O artigo foi publicado na Drama, revista de cinema e teatro, v.5, p.50-53, abril de 2014. ISSN: 2183-0894. APAD, Lisboa, Portugal. Revisado em 05 de dezembro de 2024].


1 Juntamente com Larry David, Jerry Seinfeld é astro e co-criador do seriado Seinfeld. Além de ser o criador de Curb Your Enthusiasm, Larry também escreve os episódios, sozinho ou com alguns colaboradores, e é produtor executivo da série.

2 ESQUENAZI, Jean-Pierre: As séries televisivas, 2011, Lisboa, Texto & Grafia.

3 Em 2012, Weide dirigiu Woody Allen: A Documentary.

4 Interview: Robert B. Weide & Curb Your Enthusiasm. Whyaduck Productions, disponível em http://www.duckprods.com/projects/curb/cye-sweetzerinterview.html

5 Interview with "Curb Your Enthusiasm" and "Seinfeld" Writer Alec Berg. Austin Film Festival, disponível em http://www.austinfilmfestival.com/news/interview-with-curb-your-enthusiasm-and-seinfeld-writer-alec-berg/

terça-feira, dezembro 03, 2024

O roteiro de cinema na visão de Thomas Vinterberg



Anotações de sua palestra no Rio de Janeiro, em 08/08/2009

Por Denise Duarte


Remexendo recentemente em meus antigos cadernos, descubro um pequeno tesouro: algumas anotações de uma palestra sobre roteiro para cinema feita por Thomas Vinterberg no Rio de Janeiro, em 08 de agosto de 2009. Infelizmente, quinze anos depois, não me recordo do nome da palestra e, portanto, o título acima foi criação minha. Também não tenho lembrança do local do evento. E isso é frustrante para mim e, ao mesmo tempo, um lembrete para próximas anotações. Sei que ocorrera no Centro do Rio, talvez na Escola de Cinema Darcy Ribeiro ou no Centro Cultural dos Correios. Mas eu me recordo de dois detalhes com precisão, já que ambos foram observados pelo próprio palestrante: era um sábado pela manhã e o auditório estava quase vazio. Vinterberg disse, com certa ironia, que certamente, no Rio, as pessoas deveriam estar na praia ou fazendo algo mais interessante do que assistindo sua fala. Era mesmo incompreensível o grande número de cadeiras vazias e lembro-me do quanto isso me causara constrangimento, uma “vergonha alheia”, nos termos de hoje. Afinal, estávamos diante da oportunidade única de ouvir um dos fundadores do movimento dinamarquês Dogma 95, o último e dos mais importantes da história do cinema.

O Dogma 95 foi anunciado por Lars Von Trier e por Thomas Vinterberg no ano de 1995. Ambos ditaram o Manifesto Dogma 95 e o Voto de Castidade, onde estabeleceram regras a serem seguidas pelos cineastas que participavam ou viriam a se juntar ao movimento. Em suma, tais normas inspiravam-se na Nouvelle Vague e no Neorrealismo, defendendo um cinema livre de ditames de estúdios e de efeitos especiais, em prol de uma criação artística natural. Festa de Família (1998), de Vinterberg, é tida como a obra fundadora do Dogma 95.

Desde então o cineasta acumula, entre muitos outros, prêmios em Cannes (Festa de Família, 1998; A Caça, 2012), além do César e do Bafta (ambos por Druk, 2020).

A seguir estão alguns dos pensamentos do roteirista e diretor dinamarquês Thomas Vinterberg acerca do roteiro de cinema, os quais anotei naquele sábado de agosto de 2009 e que permanecem tão atuais.


1) São leis (não são regras) para o roteiro de filme de ação dramática

a) O forasteiro – Um estranho chega numa cidade: quase todos os filmes tratam do forasteiro e dua apresentação ao mundo.

b) O passado – Qualquer drama é sobre o passado. Acontece no momento para revelar o passado. Isso leva a ação dramática para frente.

c) A espera – É preciso esperar algo acontecer, buscar o equilíbrio entre a espera e a expectativa. O bom filme é aquele onde isso acontece.


2) Cenas de preparação

a) Cuidados na apresentação de personagens:

Qualquer ação dramática envolve perdas. Elas ameaçam o personagem. Perdas importantes estão relacionadas à vida, ao amor, à saúde, ao dinheiro. O tamanho da perda estabelece a fronteira entre a tragédia e a comedia.


b) Sobre o início do filme:

Qual o tempo da ação dramática? Sua base tem que ser real.

O roteirista nunca deve esconder do público algo importante sobre a história e o personagem no presente. Pode-se esconder algo relativo ao passado, mas não sobre o tempo presente.


c) Diálogo:

Thomas Vinterberg enfatiza a simplicidade na construção do diálogo. Usa o filme Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese, como exemplo dessa simplicidade e naturalidade narrativa aliada ao uso dramático do som e da música. Na cena inicial do filme o diálogo simples mostra a motivação do personagem central: está em busca de emprego e começa a trabalhar como motorista de táxi em Nova Iorque. Sabe-se aí, também, que ele foi fuzileiro no passado, detalhe importante para o desenrolar da história.

Portanto, no início de Taxi Driver, assim como em Festa de Família, estão dispostos os três pontos salientados por Thomas Vinterberg: o forasteiro, a espera e o passado.

No longa de Scorsese o protagonista vê o mundo de dentro do táxi. Logo, o roteiro tem que ser capaz de construir diálogos capazes de mostrar ao público o que está acontecendo. Nesse sentido, Vinterberg enfatiza que quase todo diálogo é uma espécie de entrevista. E que, em sendo assim, seu formato deve ser o mesmo de uma entrevista. Porém, alerta ele que, enquanto a técnica é óbvia, o diálogo, por sua vez, não deve ser óbvio.

Roteiro é detalhe. Consequentemente pequenos detalhes devem fazer parte do diálogo de apresentação dos personagens. Assim como a atenção ao fato de que os nomes dos personagens devem ser citados no diálogo, não somente antes da caixa de diálogo do roteiro.


3) Voz over

Thomas Vinterberg admira essa técnica, considerando-a uma forma interessante de colocar uma história dentro da história.

Exemplifica com a sequência do cavalo em The Godfather (1972), de Francis Ford Coppola. Ali, mostra-se uma história que se remete a outra anterior. Vinterberg analisa que essa construção é feita com uma naturalidade capaz de dar a conhecer ao público as regras da narrativa.


4) Naturalidade na escrita

Não há improvisação nos filmes de Thomas Vinterberg. Para ele, o ideal é escrever de forma tão natural que os atores acreditem não ser preciso improvisar.

Em suas palavras, deve-se “construir uma história natural – essa é a procura”, de modo a melhor apresentar o personagem e a história. “Não sejam criativos. As cenas devem ser naturais”.


5) O cinema norte-americano

Vinterberg aprecia o cinema dos Estados Unidos e imputa a qualidade de certas produções do país ao estilo de vida bem-sucedido que a sociedade norte-americana ainda desfruta. Citou como exemplo de roteiros bem elaborados aqueles escritos para esse cinema, não somente os de Táxi Driver e The Godfather, como também o De Olhos Bem Fechados (1999), de Stanley Kubrick. Fez ainda menção, em sua explanação, ao roteiro de Dogville (2003), escrito e dirigido por Lars Von Trier.


Em suma, o pensamento de Thomas Vinterberg sobre o roteiro de cinema:

– O forasteiro, o passado e a espera não são regras – são leis.
– Diálogo é entrevista.
– Construa uma história natural – não sejam criativos: as cenas devem ser naturais.
– Roteiro é detalhe.




quinta-feira, novembro 21, 2024

Um recomeço

                                                                 Photo by Denise Duarte


Após 9 anos sem postar em meu blog, estou de volta. Cinéma retorna em novo formato e com mais interação com o público através de seus perfis no Instagram e no X. 

A nova programação incluirá não somente comentários sobre filmes em cartaz e clássicos do cinema, mas agora também sobre as estreias no streaming e outras novidades que estou preparando com muito cuidado para vocês. 

Sigam-nos no Instagram e no X.

Até breve, pessoas!

quinta-feira, novembro 14, 2024

Zona de Interesse e Filho de Saul - quando o background diz muito


 

O que torna um filme inesquecível?

Essa poderia ser uma daquelas perguntas cuja resposta vale 1 milhão de dólares. 

Uma diretora de cinema perguntou-me certa vez por que Cidadão Kane é tido como o grande clássico do cinema. Para quem estuda essa arte, a resposta alcança múltiplas razões.

O cinema, sob a ótica do mestre do cinema francês, François Truffaut, pode ser expresso como "o prazer dos olhos". O que  traduz, entre outros, a sensação de bem-estar que levamos conosco após deixarmos a sala de cinema, aquela certeza de termos visto um bom filme, do qual nos lembraremos por muitos anos, não raro pela vida toda.

Mas e quando a obra não nos traz esse enlevo? E quando estamos diante de algo que o sabemos grandioso, marcante, impactante, mas que nos direciona a outros sentimentos, como a reflexão histórica e filosoficamente crua sobre a maldade humana?

Esse é o caso de filmes como o húngaro Filho de Saul (Saul Fia, 2015) e o britânico Zona de Interesse (The Zone of Interest, 2024). Quando assisti a este último reportei-me de imediato ao primeiro. Não somente pela temática semelhante, já que ambos são ambientados no período da Segunda Guerra Mundial e abordam o holocausto.

O ponto que muito me chamou atenção em ambos os filmes foi o uso do background. Tanto o diretor e roteirista húngaro László Nemes, em Filho de Saul, quanto o britânico Jonathan Glazer, em Zona de Interesse, constroem, de modos distintos, uma narrativa onde o que acontece ao fundo é mais impactante do que as cenas em primeiro plano: um contraste cru com a impiedosa frieza dos algozes.

Se décadas antes, Noite e Neblina (Nuit et brouillard, 1956), de Alain Resnais, e A lista de Schindler (Schindler's List, 1993), de Steven Spielberg, trataram do tema do holocausto de modo ímpar, sendo o filme de Resnais considerado ainda uma pequena obra-prima, Filho de Saul, que nos coloca dentro da cena, e Zona de Interesse trazem uma nova forma de retratar o horror histórico, retrato esse tão crucial neste impensável momento do ressurgimento do antissemitismo no mundo de hoje.











terça-feira, abril 28, 2015

Abu, rei: adeus ao gênio provocador Antonio Abujamra

   Antonio Abujamra e eu, durante gravação de seu personagem, o poeta, para peça de minha autoria, 
         'Glauco Mattoso, O Poeta da Crueldade' (RJ, 2003) (*)


De 3 a 5 de outubro de 2001, eu cobri o I Encontro Internacional de Televisão promovido pelo Instituto de Estudos de Televisão (IETV), no Hotel Glória, na cidade do Rio de Janeiro. 


A participação que mais me empolgou foi a de Antonio Abujamra, que encerrou o evento a seu modo, sempre questionador, pensante, revolucionário.

Abaixo, reproduzo meus comentários, na época, sobre sua fala, homenagem que o Blog Cinéma lhe presta neste dia triste, de um vazio imenso na dramaturgia brasileira. 

Na certeza de que não haverá outro provocador como ele... adeus, Abu...


"Eu não sou um provocador. Eu sou provocado. Eu saio nas ruas do meu país e eu sou provocado".

"Um amigo é uma espécie de eternidade." (Göethe). 
Com essa frase serena começa a devastadora participação do diretor e ator Abujamra. Último a falar no evento, como uma catástrofe natural, veio para destruir conceitos, para nos contaminar com sua incoerência, para nos emocionar com a profundidade de seus devaneios sobre a realidade de nosso país. E quando acabou sua participação, fiquei pensando sobre o quanto fazem falta os pensadores, os questionadores, os loucos, os gênios.

Com toda a solenidade do mundo, disse ainda no início de sua fala, como que anunciando o que estava por vir: "Eu vou tentar ser incoerente".

Sua definição de TV: "A TV é rascunho e eu quero rascunhar sempre."

Sobre o tema da mesa, A TV é Coisa Séria?, ele questionou se o Brasil é coisa séria, se o Congresso é coisa séria, se aquele evento era coisa séria. Disse que não queria falar da seriedade das coisas, que não queria ser sério. Então, contou alguns casos da TV ao vivo, bastante divertidos, mostrando o quanto "TV é coisa séria."

Mas, sua falta de seriedade não durou muito tempo. Logo, já estava narrando a sua visão crua de Brasil e discordando dos que o chamam de provocador: "Eu não sou provocador, eu sou provocado. Eu saio nas ruas do meu país e sou provocado." Disse, e pude perceber toda a dor de suas palavras, que ao ver as pessoas abandonadas nas ruas, "eu sinto uma espécie de qualquer coisa não vai bem." Ele não acredita que a saúde e a educação, apesar de todos quererem provar a ele o contrário, estejam melhorando no país.

"Nós, artistas, queremos é a imaginação".

Abujamra deixou claro que gostaria que a TV fosse a arte da democracia. "Ela não é a arte da democracia." Relatou, então, que foi expulso de todas as TV's onde trabalhou.

Sobre o papel do artista na TV, afirmou: "A imagem escraviza. A TV não pode ser uma bala só no revólver pro' artista. O Collor tentou uma bala só. A TV machuca." Abujamra alertou para o fato de que não viu ainda alguém que tenha feito televisão a vida toda não ter pago alguma coisa por isso. "É preciso não trocar a vida pela televisão."

Em relação ao distanciamento entre a TV e a vida real, declarou: "A TV dá a impressão que não compreende os problemas que ela escolhe. Ela faz a estética a partir do sofrimento das outras pessoas."

Repetiu inúmeras vezes, como para que decorássemos: "A TV tem que ser descoberta. Ela ainda é virgem, ninguém sabe direito o que fazer com ela."

Abujamra disse não gostar quando a TV determina opiniões, diz verdades absolutas. Para ele, ao contrário, "o artista tem que idolatrar a dúvida".

Sobre planejamento em cultura, "temos que ter cuidado com aquilo que se faz. Tem que atuar hoje e não projetar para um ano ou daqui a 5 anos."

Na relação entre televisão e teatro, para ele, o teatro é a grande escola: "O teatro é a fornalha do ator. É lá que ele vai entender o gesto que ele faz, o gestual, o gesto social. A TV é execução: não há tempo."

Por fim, relembrou um pouco o passado do teatro, a censura e os grandes nomes. "Nunca mais se viu uma grande criação no teatro e na TV brasileira."

Encerrando, em um vídeo de 8 minutos, Abujamra dispara incessantemente, insanamente, sensatamente contra a TV e o meio artístico. 

Quando terminou o filme e se acenderam as luzes, nossos conceitos estavam aos pedaços. E não havia mais tempo para recompô-los. O evento havia terminado. E ainda bem que terminou assim, da forma mais criativa e crítica possível, com toda a crueza, com toda a poesia e com toda a louca beleza de Abujamra.

(Denise Duarte, I Encontro Internacional de Televisão, 05 de outubro de 2001)

(*)  Foto acervo pessoal de Denise Duarte

quarta-feira, outubro 24, 2012

Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi premiam fãs com um ano de cinema grátis

Divulgação BelémCom

O Cine Tela Brasil, projeto dos cineastas Laís Bodaznky e Luiz Bolognesi, chega a um milhão de espectadores em novembro. Para comemorar a marca histórica, os cineastas lançam, em parceira com a rede de cinemas Cinemark, uma promoção na página do Portal Tela Brasil, no Facebook (www.facebook.com/portaltelabrasil) e premiam fãs com um ano de cinema grátis, para que possam levar quem nunca entrou na sala escura.

Até o dia 15.11, os fãs da página do projeto estão convidados a responder à pergunta: “Quem você conhece que você gostaria de levar pela primeira vez ao cinema e por quê?”. Serão cinco vencedores. Cada um receberá 10 pares de ingressos para toda rede Cinemark, válidos por um ano, e ainda poderão participar da sessão de gala do Projeto, realizada no Parque do Ibirapuera, no dia 22 de novembro. 

Desde 2004, o Cine Tela Brasil, patrocinado pela CCR e pela Fundação Telefônica Vivo, percorre o país com sessões gratuitas de filmes nacionais. 


domingo, junho 17, 2012

Festival de Cinema Argentino traz o premiado e inédito Las Acacias

Em comemoração aos 15 anos da Rede Cinemark, a cadeia de cinemas promove com exclusividade o 1º Festival de Cinema Argentino, realizado em parceria com o Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales (INCAA) da Argentina. A programação reúne longas-metragens do cinema argentino contemporâneo – entre eles, o premiado ‘Las Acacias’, de Pablo Giorgelli, vencedor da Câmera de Ouro do Festival de Cannes de 2011. O evento chega ao Rio de Janeiro entre 22 e 28 de junho, no Shopping Downtown, exibindo dois filmes por dia. Em agosto, o festival passa por Florianópolis, entre os dias 10 e 16 e Porto Alegre, entre 24 e 30.


"Las Acacias" traduz muito bem a alma do cinema argentino, focado em personagens simples, comuns e num roteiro distante da cartilha hollywoodiana, sem viradas ou lições ao final. A vida é mostrada visualmente, tal qual transcorre no cotidiano, com naturalismo, sem exacerbações dramáticas. É muito mais a imagem, que qualquer outra coisa, o condutor da história. Rubén é um caminhoneiro argentino que viaja de Assunção, no Paraguai, a Buenos Aires, na Argentina, e que dá carona a Jacinta, uma paraguaia com sua filha de cinco meses. Esse é o mote de “Las Acacias”, uma cativante narrativa sobre caminhos que se cruzam aleatoriamente e nos fazem refletir sobre a simplicidade da vida. 



quarta-feira, março 21, 2012

morre Tonino Guerra e o roteiro de poesia

Morreu hoje Tonino Guerra, um dos maiores roteiristas de todos os tempos. Argumentista do vazio e do texto poético para cinema, foi autor, assim como o fora Suso D’Amico (morta em julho de 2010), de algumas das grandes obras-primas do cinema. Trabalhou, entre outros, com Federico Fellini e Andrei Tarkovski, Mas foi com Antonioni que construiu a trilogia da incomunicabilidade (A Aventura, 1960, A Noite, 1961, e O Eclipse, 1962). Tonino confeccionava o tempo no roteiro a sua maneira, dentro de uma estrutura aberta e poética na qual elaborava uma descrição de cenas corriqueiras, como nas imagens sem diálogos que fazem parte dos sete minutos finais de O Eclipse. Tempos mortos que entraram para a história do cinema e inspiraram e inspiram diretores ainda hoje, como Gus van Sant, Terrence Malick, Sofia Coppola e tantos outros. Um dia triste, um dia vazio, sem a presença de Tonino Guerra... fica seu legado, um vasto material para estudo e reflexão sobre o papel do roteiro/argumento no cinema...

quinta-feira, novembro 10, 2011

La piel que habito

La piel que habito (2011), de Pedro Almodóvar, é um filme muito bem cuidado, seja no detalhamento dos objetos de cena, decoração e figurinos, quanto no roteiro, direção, fotografia, montagem. Contando com a colaboração de Jean Paul Gaultier, Almodóvar mistura gêneros como a ficção científica, o noir e o terror, naquele que pode ser considerado seu melhor filme. E o mais feminista. Aliando o pendor natural do diretor pela temática, em La piel que habito, soma-se a influência da artista plástica Louise Bourgeois, morta em maio de 2010, cujas obras pontuam a película. Acima de tudo, um filme para ser refletido sob muitos ângulos.

segunda-feira, agosto 22, 2011

Esses Amores (Ces Amour Là)

Esses Amores (Ces Amour Là, 2010) é a homenagem de Claude Lelouch, em seu 51o. filme, ao cinema. Se tal intenção não estivesse expressa nos letreiros que precedem a exibição, certamente seria deduzido pelo espectador da primeira à última cena do filme. Se isso não bastasse, o diretor compõe uma narrativa dramática permeada por uma boa história, contada visualmente, leve e distante dos dramas hollywoodianos. Ótimo filme, na minha opinião.

Sinopse:
Ilva é uma mulher que se apaixona facilmente. Desatenta e despreocupada como seu amor pode ser visto pelos outros, ela se vê presa as conseqüencias de seus atos.
Primeiro na França dominada pelos Alemães, ela se apaixona por um nazista, o que indiretamente leva a morte de seu pai. Para muitos, sua relação era vista como uma colaboração com os nazistas.
Seu próximo amor traz mais tragédia. Durante a libertação da França em 44, quando ela é violentamente obrigada a responder sobre sua relação com a Alemanha, ela é salva por dois soldados americanos, um branco e um negro. Ela então se apaixona pelos dois, ao mesmo tempo. Sua incapacidade de escolha entre eles cria conflitos, tristezas e assassinato.

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Speelbound (Quando Fala o Coração, 1945)


Speelbound (1945) é um dos filmes mais curiosos entre a filmografia de Alfred Hitchcock. Mescla suspense, psicanálise e influências do movimento cinematográfico surrealista. A sequência do sonho, narrada pelo personagem interpretado por Gregory Peck, é baseada em desenhos de Salvador Dalí (figura acima), e tem elementos oníricos típicos daquele movimento. Talvez seja o filme mais rico de Hitchcock no tocante à relação entre a psicanálise e o surrealismo. E um dos melhores exemplos daquela vanguarda no cinema misturada ao gênero suspense.

Ingrid Bergman é a psicanlista que tenta fazer com que o personagem de Peck recupere a memória. O grande destaque é a presença do ator Michael Chekhov, como o Dr. Alexander Brulov (foto abaixo).

Speelbound é uma preciosidade que recebeu no Brasil um título em muito reducionista (Quando fala o coração). 

sexta-feira, janeiro 21, 2011

A Última Estação (The Last Station)

A Última Estação (2009) faz pensar o quanto se têm desperdiçado idéias no cinema em mãos de diretores e roteiristas incapazes de dar bom andamento a projetos de peso. Michael Hoffman deixou passar a chance de fazer um filme de valor em sua inexpressiva carreira ao abraçar a adaptação da ótima novela de Jay Parini. Falado em inglês (o russo seria tão necessário), exagerando na aplicação do melodrama clássico ao estilo hollywoodiano e consequentemente no plano e contraplano (e nos closes excessivos), o filme frustra pelo esvaziamento da narrativa. Uma história com o enfoque nos dias finais de Tolstoi merecia um capricho maior e muito mais sutileza e densidade cinematográficas.
Nem as filmagens na Alemanha e a presença de atores de peso, como Christopher Plummer (Léon Tosltoi), indicado ao Oscar 2010 como melhor ator coadjuvante, e Helen Mirren (Sofia Tolstoi), indicada como atriz principal, conseguem deixar lembranças mais duradouras sobre essa produção. 
Aos que não o sabem, principalmente as novas gerações, o filme pode despertar curiosidade de se pesquisar acerca da vida de Tolstoi e da criação do mito, bem como da espécie de religião denominada Tolstoismo, uma corrente de pensamento surgida na Rússia ao final do século XIX

domingo, janeiro 16, 2011

Além da Vida (Hereafter)

Clint Eastwood continua sendo o diretor norte-americano contemporâneo que mais gosto. Além da Vida (Hereafter, 2009) demonstra bem essa premissa. O diretor, ao falar sobre a morte em seu mais recente filme, acaba por enfatizar a vida. Não entra no campo da discussão sobre o além.
Ao contrário, seu enfoque é na vida, no caso em três personagens centrais, um ex-vidente (Matt Damon), uma famosa apresentadora da tv francesa que passa por uma experiência quase-morte (Cécile De France) e um menino que perde seu irmão gêmeo.  Chama atenção a cena inicial, especialmente impactante e extremamente bem feita.
Clint, em Além da Vida, mas não só aqui, sem ser panfletário ou enfático, mantem um estilo de direção serena, cheio de sutilezas e, acima de tudo, inteligente, sem buscar o caminho mais fácil do melodrama ou do sensacionalismo, ou mesmo de defesa de um ponto de vista religioso sobre o tema. Clint apenas celebra a vida.

Biutiful

Biutiful (2010), de Alejandro González Iñárritu (Babel, 21 Gramas, Amores Brutos), mantem as marcas estilísticas características do diretor: a não-linearidade, gosto pela pela estética realista, crua e dura, foco em vidas sem saída, marcadas pela luta em torno da sobrevivência, e enfoque na temática da morte como algo inevitável, mesmo que se negue a aceitá-la.
Esse é o drama vivido pelo personagem Uxbal, interpretado por Javier Bardem, pai de dois filhos, separado da mulher que ama, uma bipolar que se nega a se medicar, ele portador de câncer terminal em sua luta para protegê-los do mundo ao redor até o final.
Faz parte da trama a dura realidade do trabalho ilegal e escravo de imigrantes orientais e africanos, explorados por uma rede de agenciadores inescrupulosos. Uxbal tem ligação direta com esse universo, seja conhecendo os agenciadores, pagando policiais para não fiscalizar o trabalho desses imigrantes ou tentando minorar suas péssimas condições de vida, comprando-lhes aquecedores ou pagando-lhes pequenos serviços, como uma babá para seus filhos.
Um filme sufocante, imensamente triste ao mesmo tempo que inteiramente verdadeiro, assemelhando-se de modo mais próximo, entre os demais filmes de Iñárritu, a 21 Gramas.

Tetro

Tetro (2009), de Francis Ford Coppola, decepciona. Apesar do preto e branco e da ambientação na bela Buenos Aires, principalmente no bairro da Boca, o filme careceu de um bom roteiro e de lapidação nos diálogos e na direção dos atores. Nem mesmo a presença de peso do lendário ator autriáco Klaus Maria Brandauer, no papel de pai de Tetro, conseguiu salvar a película.

Para narrar a densa história de uma família, a opção recaiu por um dramalhão que pedia menos exagero e mais sutileza, principalmente para evitar o diálogo revelador final, o que indica a falta de um roteiro capaz de dar conta de uma verdadeira linguagem cinematográfica, de uma boa história contada em imagens.

terça-feira, dezembro 07, 2010

Oceanos (Océans)


Oceanos (Océans, Jacques Perrin e Jacques Cluzaud, 2009) é acima de tudo um belo filme, com imagens espetaculares, e que só agora chega aos cinemas do país.

Documentário rodado em mares e praias ao redor do mundo, co-producção entre França, Suíça e Espanha, mostra a diversidade da vida marinha dos oceanos e a rica cadeia alimentar que propiciam, além de exibir animais raros que habitam as profundezas dos mares. Denuncia também a poluição e a matança de baleias e tubarões, bem como o perigo que a presença iminente do homem pode causar às regiões polares.

Com grandes patrocínios, incluindo o apoio do príncipe Albert, de Mônaco, o filme nos brinda com lindas imagens em longos planos de golfinhos, focas e baleias em bando, sendo o mar o centro do espetáculo.

Um documentário necessário pelo alerta que faz ao nos mostrar que toda essa beleza pode desaparecer em breve (não há tanto tempo assim) na medida em que aumenta o despejo de esgotos, lixo e óleo nos mares.

domingo, setembro 26, 2010

Tropa de Elite 2: roteiro, efeitos especiais e montagem

Wagner Moura (Nascimento)
Crédito: Alexandre Lima
José Padilha fez em Ônibus 174 um dos melhores documentários brasileiros dos últimos tempos. Em verdade, na minha opinião, apenas um filme o supera no mesmo gênero, Santiago (2007), de João Moreira Salles, em si mesmo uma aula de fazer e pensar documentário, uma lição de cinema. Em Ônibus 174, vemos a estrutura de um documentário fundado em forte pesquisa temática e de personagem (central e periféricos). O dedo apontado para nós, sociedade, ao final do filme continua em Tropa de Elite, este um filme que, juntamente com Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, trouxe uma ruptura com o filme brasileiro de ficção feito anteriormente. Por meio da montagem, do ótimo trabalho no roteiro e da nova direção de atores, as duas obras foram responsáveis por propor novo ritmo ao cinema nacional ficcional.

Em Tropa de Elite 2, o inimigo agora é outro, a tendência é seguir o mesmo caminho de sucesso alcançado pelo primeiro filme da série, vide a equipe que o compõe.


Pesquisa e Roteiro
O trabalho de pesquisa, que teve como consultores Rodrigo Pimentel, o deputado estadual Marcelo Freixo e a delegacia comandada pelo delegado Cláudio Ferraz, foi realizado por quase dois anos antes de o roteiro do roteirista Braulio Mantovani e do diretor José Padilha ganhar forma. Ambos construíram uma história atual, baseada em fatos reais que se misturam a história fictícia de Nascimento (Wagner Moura), da sua família, e de seus amigos, para falar da realidade do Brasil no cinema. O protagonista, agora dez anos mais velho, cresce na carreira: passa a ser comandante geral do BOPE, e depois Sub Secretário de Inteligência. Em suas novas funções, Nascimento faz o BOPE crescer e coloca o tráfico de drogas de joelhos, mas não percebe que ao fazê-lo, está ajudando aos seus verdadeiros inimigos: policiais e políticos corruptos, com interesses eleitoreiros. Agora, os inimigos de Nascimento, são bem mais perigosos.

Em Tropa 2 o principal arco dramático do filme, que no primeiro Tropa foi de Mathias (André Ramiro), será de Nascimento. Como o próprio Nascimento diz em Tropa 2, "agora é pessoal".

Bráulio Mantovani entrou em Tropa de Elite já com o primeiro tratamento do roteiro pronto, como consultor, script doctor, e acabou mudando o foco narrativo do filme na sala de montagem ao lado do diretor José Padilha e do editor Daniel Rezende. A ousadia realizada sem regravação de cena, apenas com offs reescritos, transformou o personagem secundário em protagonista. O feito, “uma loucura, que beirava o impossível”, como dizia na época, acabou fazendo de Tropa 2 “quase uma obrigação”. “Tropa era para o Mathias (André Ramiro), mas o Wagner (Moura) roubou o filme. O Nascimento era mais um narrador. Foi o Wagner que fez a gente descobri-lo. Agora sim, vamos explorar todas as contradições dele a fundo e levá-lo aos seus limites”, diz. “Tropa 2 é um mergulho nas contradições do Nascimento. É a descida dele aos infernos”, completa. Fora a “obrigação”, a ideia de trabalhar o problema das milícias, outro assunto nunca tocado no cinema, segundo Mantovani, foi um presente. “As milícias são fenômenos tão recentes que os personagens precisavam envelhecer para poder lidar com eles. Tivemos que atualizar o tempo para que isso pudesse ser cronologicamente crível”, explica.“Durante um ano mais ou menos, fizemos cinco versões diferentes do roteiro. Tentamos vários caminhos. Numa parceria muito próxima com o Padilha e onde muitos participaram: Daniel Rezende, Marcos Prado, Wagner Moura...”, diz.

Paulista, formado em Língua e Literatura Portuguesa e pós-graduado em Roteiro Cinematográfico pela Universidade de Madri, Mantovani começou como roteirista de longa-metragem já indicado ao Oscar por Cidade de Deus, fruto de uma parceria iniciada em sua estréia como roteirista no curta Palace II (2001), de Fernando Meirelles. Já a dobradinha com José Padilha começou quando Mantovani escrevia o roteiro para a versão ficcional do documentário Ônibus 174, o filme Última Parada 174, de Bruno Barreto. “O Zé (Padilha) foi um verdadeiro produtor criativo, me ajudou muito no roteiro”, diz. A sintonia evoluiu com Tropa. “Aprendi com o Bráulio que eu não sabia escrever. Achava que sabia, mas levava três meses fazendo um tratamento que o Bráulio faz, muito melhor, em duas semanas”, dizia Padilha, na época do lançamento do primeiro Tropa.

Em Tropa 2 a proximidade, em especial com Padilha e Daniel Rezende, com quem trabalhou ainda em Cidade de Deus e O ano em que meus pais saíram de férias (2006), de Cao Hamburger, rendeu boas trocas. Montavani participou durante três dias da montagem. “Só visito a montagem, detesto ‘set’, acho chato, já estive muito” - antes de assinar roteiros, Mantovani trabalhou como assistente de direção e câmera e escreveu para teatro - “sinto que não tenho como ajudar, interagir, ali. Já na montagem e nos ensaios, sim. Não participei dos ensaios de Tropa 2 por impossibilidade de tempo. Mas nos ensaios dá para perceber o que funciona e o que não ainda dá tempo de alterar. E na montagem podemos mudar até o foco narrativo (ri).”

Apontado como um dos melhores construtores de diálogos hoje no ofício do roteiro no país, Mantovani desconversa.“Quase todas as frases de Tropa que viraram bordões saíram dos ensaios, da interação com o pessoal do BOPE. O que faz uma fala ter repercussão é a maneira, o carisma, como o ator diz o texto”, afirma. Mas se contestado, ele acaba reconhecendo algum mérito seu: “Claro que cada cena tem que estar muito bem escrita, tudo muito bem encadeado, para que os improvisos, o carisma, as sintonias aconteçam.”

Perguntado se costuma andar com caderninhos em busca de inspiração, responde: “Quando escuto coisas que gosto, guardo na memória e uso depois, mas não tenho o hábito de anotar frases de forma sistemática”. E afirma: “Eu não me levo muito a sério. É tudo rock’nroll (ri).”


Efeitos Especiais e outros
Uma equipe de efeitos especiais, com nomes como Bruno Van Zeebroek, de Transformers, William Boggs, de Homem-aranha, e Keith Woulard, de O Curioso Caso de Benjamin Button, Independence Day e Forrest Gump, trabalhou no set de Tropa 2. O presídio de Bangu 1 foi reconstruído em seus mínimos detalhes num estúdio de mil metros quadrados, consumindo cerca de 15% do orçamento. Corpos carbonizados foram criados pelo mestre da maquiagem Martin Trujillo. Câmeras foram penduradas em cordas para dar maior proximidade e ineditismo à marcante fotografia de Lula Carvalho. Um andar inteiro de um edifício na Av. Presidente Vargas, centro do Rio, voltou a ser sede da Secretaria de Segurança Pública do Estado.


Montagem
“A estética de Tropa 2 - presente na edição - espelha a idade, o momento, dos personagens”, diz Daniel Rezende. “Nosso maior medo era fazer mais duas horas do primeiro filme. Tropa 2 tem uma pegada diferente. O considero mais adulto. O primeiro tem uma energia visceral. Muito da descoberta. O segundo vai para os bastidores, para a política, sem perder a ação, a agilidade, a brutalidade do BOPE, o universo pop no qual Tropa está inserido. Mas tem menos música comprada. Tem menos off de narração. Mais tempo de silêncio. É tensão pura, tem cenas catárticas, mas dentro de um espírito mais maduro. Tropa 2 já nasce pop por natureza. Não precisa reforçar isso”, diz.

O editor, contrariando cânones cinematográficos, participou de todas as filmagens de Tropa 2, como diretor de segunda unidade.“Nunca tinha trabalhado assim. Só tinha ido em refilmagem já montando. Existe uma facção que diz que o montador nunca deve ir ao set, porque é bom manter o olhar fresco, mais próximo do espectador. Mas aprendi muito. Montador sempre se pergunta porque não filmaram isso ou aquilo. Para ele, parece óbvio, mas no set você entende porque aquilo que, às vezes, você mais precisa não foi feito. O Zé (Padilha) me chamou ainda na pré-produção. Pensamos juntos desde o início.E ganhamos em acerto e rapidez”, diz.

Tropa 2 levou três meses e meio em edição, quando normalmente um filme desse porte leva cerca de sete, o
dobro. “O Zé fazia no papel onde estariam as câmeras, para saber se estávamos cobrindo tudo. Eu, às vezes, indicava um lugar para cortar, como num close. Temos muitos planos sequência, então ia assistindo ao ‘take’ rolando e já pensando que trecho poderia usar. O Renato Martins, montador associado, ia preparando o primeiro corte de cada cena, baseado na minha conversa com o Zé. Muitas vezes, depois da filmagem passava na ilha e direcionava o que ele tinha feito. Quando fui de fato editar, já tinha boa parte do trabalho feito”, explica.

Sobre como resolveu na montagem as muitas idas e voltas no tempo do filme, Rezende responde: “ele parece que vai e volta, mas não é tão assim”. “Atribuem sempre o mérito de ir e voltar no tempo, sem perda de ritmo ou entendimento, à montagem, mas se não funciona é porque no roteiro não estava bem construído”, diz. O elogio endereçado ao roteirista Bráulio Mantovani exprime uma parceria sólida. “Se pudesse só trabalhava com ele. O montador é o olho mais cru. Mas depois de estar ali na ilha há meses, ele vicia. Ter o Bráulio, que vem lá de trás, nessa hora, ajuda muito”, diz. 

**Foto, entrevistas e dados de produção extraídos do press book distribuído pela assessoria de imprensa do filme, Belém Com, http://www.belemcom.com.br/

Mais informações:

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